O algodão possui mais celulose do que o eucalipto, mas toneladas de camisetas continuam sendo descartadas em aterros no mundo todo. A reflexão foi trazida recentemente em um podcast por Rui Martins, presidente da Inovafil e referência em inovação têxtil na Europa.
Para Martins, essa situação expõe uma contradição estrutural da cadeia global de reciclagem têxtil: enquanto a indústria planta eucalipto para produzir celulose, enterra uma matéria-prima rica, limpa e já disponível.
Segundo ele, a conta ambiental é direta. Cada peça de algodão descartada representa energia, água, solo e trabalho desperdiçados — e o volume é enorme, com bilhões de itens fabricados todos os anos.
“O algodão é mais rico em celulose que o eucalipto, mas nós enterramos toneladas de camisetas e vamos plantar eucaliptos. Por que não reciclamos?”, questionou.
Outros especialistas ouvidos pelo Recicla Sampa concordam. Para eles, a saída passa por ampliar a reciclagem mecânica e química do algodão, aprimorar a triagem dos resíduos têxteis e incentivar modelos de produção capazes de recuperar fibras com qualidade.
Além disso, políticas públicas e investimentos industriais precisam avançar para que esse potencial ganhe escala real.
“Fizemos a vacina da Covid em tempo recorde e não conseguimos resolver o segundo maior problema ambiental do mundo, que são os desperdícios têxteis? Falta vontade política”, diz Martins.
A lógica atual — plantar mais árvores enquanto toneladas de algodão vão para o lixo — mostra o desalinhamento do setor com os princípios da economia circular.
Reaproveitar o algodão já disponível é um passo estratégico para reduzir impactos climáticos, aliviar a pressão sobre recursos naturais e tornar toda a cadeia mais eficiente.
O desafio é grande, mas o caminho é claro: transformar o algodão descartado em nova fibra, fechar ciclos produtivos e reduzir perdas em uma das indústrias mais poluentes do planeta.










